Os Barões Assinalados

Em termos históricos e contemporâneos, encontramos no país três espécies de barões: desde logo, os barões de barba rija, corporizados por todos aqueles genuínos caceteiros que dilataram a fé e o império a ferro, fogo e fio de espada, mas que ainda assim tinham alguns rebates de consciência que os punham de vez em quando de mal com o rei por amor aos homens e de mal com os homens por amor ao rei.

Depois, surgiram como cogumelos os da segunda espécie, os castiços barões do século XIX, burgueses pato-bravos que, enriquecidos com o ouro do Brasil, foram transformando o seu tinto sangue em sangue azul-real com a compra dos seus baronatos em saldos e leilões, à medida que a nobreza ia caindo na falência e deixava de pagar o passivo das suas vidas ociosas.

E finalmente encontramos, supostamente e para já, os barões mais recentes, nossos contemporâneos que por aí andam de rosto escondido, sem sabermos bem quem são e o que fazem. Tentámos, contudo, recorrer aos doutos conhecimentos do Prof. Hermano Saraiva sobre esta espécie em vias de extinção, a fim de sermos esclarecidos com maior rigor e credibilidade acerca das suas origens e linhagens.

Não nos tendo sido possível, porém, para grande mágoa nossa, contactar o emérito Professor, restou-nos apenas como último recurso à mão dar uma rapidinha ao Google na busca de alguns elementos esclarecedores.

E ficámos, então, desde logo a saber esta estranha singularidade: quanto mais antiga for a coisa, mais elementos se encontram à nossa disposição e mais fácil se torna obviamente descobrir a verdade sobre a coisa. De facto, não era em vão que a minha santa avozinha dizia que com o tempo a verdade vem sempre ao de cima.

Daí a ficarmos a saber sobre muitas coisas que passaram já à história e de muito pouco sobre os actuais barões. Mas sempre ficámos a saber alguma coisa. Por exemplo, parece ser certo que os actuais barões são descendentes enviesados dos antigos barões do século XIX, só que muito mais subtis e sofisticados. Já não usam o baronato nem os seus brazões anelares; agora são doutores e engenheiros. Já não compram títulos à nobreza falida; agora compram acções, obrigações e futuros.

Mas, seguramente, o futuro não se joga na bolsa; joga-se nos partidos. E quer os vejamos ou não, eles, os barões, estão mesmo aí à espera da hora certa para a tomada do poder, invisíveis como aliens e calculistas como Bruto, e, seguramente também, sem os rebates de consciência de que padecia Afonso de Albuquerque, que morreu sem honra nem glória numa fanada nau, algures no Índico.

Os Vendedores de Promessas

Apesar do descontentamento geral, traduzido pelas greves e manifestações que ocorrem, aqui e ali, por todo o país, parece que ainda assim os ventos sopram de feição para o governo.

Mas, seguramente, esses ventos favoráveis que vão permitindo o governo navegar com terra à vista não decorrem de obra feita, que é nenhuma; não derivam de quaisquer medidas estruturantes para recuperação do atraso em que o país se encontra, pois continua não só na cauda da Europa, como se afasta cada vez mais dela; e muito menos ainda de medidas de fundo visando a melhoria da vida dos portugueses, que essas , então, têm sido de uma verdadeira calamidade para todo o tecido social.

Ora, se o partido no poder mentiu descarada e acintosamente aos portugueses, especialmente aos eleitores que nele votaram; se o governo tem vindo a tomar medidas de uma execrável insensibilidade humana e declaradamente gravosas para a quase totalidade da população, então como justificar que o governo vai de vento em popa?

A resposta, obviamente, é de uma simplicidade primária e está na boca de toda a gente, ou seja: na total falta de credibilidade em toda a massa política do país; nos feudos em que se tornaram os partidos; e, neste momento e em particular, nas guerrilhas intestinas e interesseiras em que se envolveu o principal partido da oposição.

Face a este estado tão degradado a que o país chegou e à desconfiança generalizada nas instituições, às vezes até somos levados a descrer dos próprios resultados eleitorais. Há qualquer coisa que não bate certo.

Mesmo considerando as elevadas taxas de abstenções, como é possível haver ainda tanta gente a confiar os seus votos nesses partidos, dos quais antecipadamente já se sabe que lhe vai lixar a vida?

Como é possível darmos generosamente o nosso precioso voto, legitimando um poder que a priori sabemos que só nos vai reduzir os nossos, que não os deles, cada vez mais reduzidos proventos, e retirar-nos direitos sociais suportados com os dinheiros dos nossos impostos?

O tempo corre cada vez mais célere e já não vai faltando muito para as próximas eleições. O país está insolvente, quase falido, dizem eles, mas muito brevemente começarão a chover as famigeradas promessas: milhões para o novo aeroporto; milhões para o tgv; milhões para as novas pontes sobre o Tejo; milhões para auto-estradas para o interior do país; milhões para hospitais e creches, redução de impostos, blá, blá, blá.

Como habitualmente, vão ser girândolas de milhões de promessas… e de mentiras.

Atenção, pois, minha gente, e lembrem-se do avisado conselho que o Conde de Sabugosa dava à sua filha: cuidado, minha filha, que o rouxinol só canta quando quer fazer amor.

Os Inimputáveis

Dizem, a crer em Gomes Leal, que a senhora duquesa de Brabante tinha um filho horroroso, todo disforme e malquisto, aborto e horror da brava natureza, com pêlos de fera e uivos de animal.

Dizem também, segundo reza a história, que D. Afonso VI era outro aborto da natureza, horroroso e malquisto, envolvendo-se em constantes arruaças com as gentes humildes do povo, e ficamo-nos por aqui para não entrarmos em outros aspectos escabrosos da sua vida, a tal ponto que D. Pedro II, seu irmão, lhe acabaria por usurpar o trono e a própria rainha, Mademoiselle d’Aumale, e mandá-lo acabar os seus dias no desterro.

Mas dizem mais: que D. Afonso Henriques usurpou o reino a sua mãe D. Teresa e a mandou para os calabouços até ao fim dos seus dias; que D. João I entrou pelo palácio da Ribeira e matou com as suas próprias mãos o Conde Andeiro, e sabe-se lá mais quem, e apoderou-se do reino; que D. Pedro I mandou arrancar o coração pelas costas aos assassinos de Inês de Castro, a cujo acto brutal se parece ter escapado unicamente o Pacheco, conseguindo fugir milagrosamente para o país dos francos.

E o rol das anormalidades e das bestialidades continua ao longo da nossa longa história, desde a batalha da Alfarrobeira, onde o rei, a rainha e o nosso seráfico Infante D. Henrique assistem beatificamente, em cima dos seus cavalos, à matança do Infante D. Pedro, que era nem mais nem menos do que sogro, pai e irmão, respectivamente, daquela real gente; até à sinistra noite das facas longas, durante a qual D. João II saciou selectivamente os seus instintos de vingança, que tudo isso são coisas que não devemos nem podemos esquecer.

Mas este vale de lágrimas continuou e não parou com o regicídio de D. Carlos, nem com a implantação da república. E nem vamos falar sobre a nossa responsabilidade na morte de centenas de milhares de pessoas que morreram como consequência do nosso abandono das colónias em África; e não vamos falar, porque ainda é cedo em termos históricos, porque ainda estamos de nojo e ainda é tabu falar sobre tal matéria.

Dizem que para visualizar o futuro, devemos olhar para o passado. Assim, perante esta herança histórica, toda ela ligada à cultura da malvadez, a que a própria igreja não se furtou com a sua execrável inquisição e os seus abomináveis autos-de-fé, o que poderemos então nós esperar deste país?

E sobretudo neste momento de vendaval político, quando a nau mete água e se afunda, e os seus capitães, em vez de tratarem dos rombos, lutam antes entre si pela posse da arca com os despojos da guerra, o que terão estes políticos para oferecer ao povo e engrandecer Portugal?

Nada. Absolutamente nada. Daí que quando o Jardim da Madeira chama aos continentais de cubanos, provavelmente e com maioria de razão o que ele pretenderá dizer é: cambada de inimputáveis!

Inquisição e Purgas

Parece que vamos ter que reinventar o conceito de democracia neste país, a fim de podermos compreender o que vai na cabeça de meia dúzia de aves raras e migratórias que de vez em quando dão à costa por estas bandas.

Nesta fase do campeonato, quando tudo parecia consolidado em matéria de democracia institucional e partidária, e que quanto a purgas e inquisições tais práticas estivessem, no contexto nacional, apenas limitadas ao partido comunista, surgem agora no PP-PSD alguns focos inquietantes de intimidação e repressão a seus próprios partidários.

Numa altura em que o chamado PP-PSD, com a responsabilidade que lhe confere o facto de ser a única oposição de alternância ao poder, deveria estar empenhado na elaboração de projectos regeneradores para o futuro do país e dos portugueses, o que vimos assistindo nestes últimos dias, pelo contrário, é extremamente preocupante para a vida de todos nós.

Para lá da questão dos pagamentos em dinheiro sonante e das suas eventuais implicações, o preocupante é a ligeireza com que o actual poder do PP-PDS convoca Rui Rio, supostamente para o seu acto de fé à guisa da santa inquisição.

Mas o que ainda torna mais grave esta questão é que não se trata de caso isolado. De forma ágil e rapidinha é consumada a demissão de António Capucho da sua liderança do PP-PDS de Cascais. E o cerne da questão é o por quê. Por quê? Porque simplesmente aqueles membros do partido emitiram livremente as suas opiniões, como é suposto acontecer com toda a naturalidade em sociedades ditas democráticas.

Ora, estes comportamentos eivados de tiques de autoritarismo não prenunciam nada de bom. E a procissão ainda vai no adro, considerando que esses senhores ainda não estão na posse do poder estatal, com tudo o que esse poder põe ao seu dispor: desde as secretas até à polícia de choque.

Exagero? Não sabemos. O que sabemos é que gato escaldado tem medo de água fria e Maquiavel não era tão parvo quanto isso.

Resta, pois, esperar para ver como irão reagir os próprios militantes do partido, que são afinal os primeiros responsáveis por este estado de coisas. Sobretudo os seus barões, que aliás não se sabe bem por onde andam.

O Rei Vai Nu

Face ao cada vez mais evidente apodrecimento do governo, começam agora a surgir os primeiros sinais de nervosismo nas hostes da oposição.

Os habituais protagonistas da nossa vida política começam já a mexer-se e o próprio Luís Filipe Menezes acaba de publicamente dizer que dentro do seu partido há borbulhas no ar. E por quê borbulhas no ar?

Ele próprio, Luís Filipe Menezes, foi claro na resposta; porque a tomada do poder vai escancarar as portas aos habituais tachos e o que está em causa é simplesmente isso: a gula pelos tachos.

Ora, o problema é que eles são mais que as mães e os tachos embora não dando para todos, dão contudo para alguns e não tão poucos assim. E mais do que apetecíveis, são irresistíveis para tanta gula: o Banco de Portugal, a Caixa Geral de Depósitos, a Galp, a Tap, os Portos e a CP, o Metropolitano, eu sei lá! são fontes de tão obscenos proventos que o povo comum nem imagina.

Por isso e não só, é muito fácil vermos as imagens do filme, com as suas danças das cadeiras, porque são recorrentes na vida nacional e se tratam de um remake que a nossa classe política de há muito nos habituou.

E reparem, no entretanto, que não se ouve uma só palavra, um único pensamento com substância sobre o futuro do país. São ágeis na diabolização da política da educação, da saúde, da segurança social e do desemprego, da justiça, do reordenamento do território, etc. etc. mas não se lhes conhece projecto algum, a nível nacional, em termos de futuro.

Quais são os seus projectos concretos sobre estas e outras matérias? Quais são os seus ministros sombra? Simplesmente zero. Há borbulhas no ar, e o que se quer, o que se pretende, o que se ambiciona são única e exclusivamente os tachos e as cadeiras do poder. Quanto ao país, que se dane, pois.

Na verdade, nós temos em Portugal um problema de fundo muito complicado por resolver e que se prende com a nula credibilidade dos partidos em geral e dos nossos políticos, em particular.

E quanto a isso, não se pode tapar o sol com a peneira nem esconder a cabeça na areia. O rei vai nu, toda a gente o sabe e toda a gente o vê nu. Ninguém consegue esconder nada a ninguém quanto a esta matéria.

É um facto extensivo a todo o país: já ninguém acredita em ninguém. Já não há oposição, nem partidos, nem políticos que nos valham. E seguramente muito menos com as tribos de Santana e Menezes.

Judas Escariotes

Não, não vou falar sobre o Judas Escariotes que traiu Jesus por trinta moedas de prata, que esse, além de já se terem passado dois mil anos, até foi supostamente obra dos superiores desígnios de Deus.

Vou falar dos outros: dos zelotas contemporâneos que perseguem os desprotegidos e atiram o povo para o desemprego e para a miséria; e daquela cambada que pulula hoje por este vale de lágrimas em companhia do seu séquito de gananciosos fariseus, recorrendo sem quaisquer constrangimentos à mais baixa desonestidade para recolherem os seus dízimos sacados a um povo cada vez mais vilmente enganado e humilhado.

É tremendamente revoltante ver políticos mudarem 180º assim que chegam ao poder e transformarem-se em capataz da nação, declarando guerra aberta a toda a sociedade e em particular a todos aqueles que de boa-fé deram os seus votos e os colocaram na cadeira do poder.

Acompanhados de esbirros caídos de pára-quedas, a quem não foi mandatada qualquer legitimidade democrática pelo povo, arrogam-se ao direito de a seu bel-talante disporem dos milhões do erário público, como se estivéssemos no Congo ou na Patagónia; usurpam arbitrariamente direitos adquiridos aos fracos; e concedem privilégios escandalosos aos mais fortes que os arrebanham sem qualquer pudor, sob a descarada alegação de: não é moral mas é legal.

Pelos vistos, o dura lex, sed lex que antigamente atingia toda a gente já passou à história. Agora, são eles os próprios fazedores das suas próprias leis, que os protegem e os favorecem em todos os domínios e em todas as áreas. Mas, em rigor e em verdade, as suas leis apenas são legais em termos de forma. Porque, à luz do mais elementar princípio canónico, elas são, sim, declaramente imorais, mas são substantivamente falaciosas e claramente fraudulentas . Essas leis estão, sem qualquer sombra de dúvida, feridas de nulidade, digam os entendidos o que disserem com toda a sua retórica jurídica.

Podem aqui despedir funcionários, ali arranjarem tachos para os amigalhaços; podem aqui diminuir pensões, ali deixarem morrer os velhos e os miseráveis; podem encerrar escolas, maternidades e hospitais, e podem até abrir frentes de guerra contra os professores, contra a função pública e contra todo o mundo. Sabem bem que o povo não deu o seu voto para isso. E basta uma simples leitura dos compêndios de história para ficarmos a saber como terminam quase sempre esses conflitos.

De qualquer forma, caberá sempre a todos nós, enquanto cidadãos, dar cabal resposta a todas estas questões, nem que seja já nas próximas legislativas, mas conscientes de que estes fulanos não falam verdade e mentem com todo o descaramento, qualquer que seja o seu quadrante político.

The Little Brothers

Por muito que os senhores do poder escondam as suas trafulhices e malabarismos, os seus esquemas e as motivações das suas guerras, a verdade é que mais dia menos dia os seus crimes acabam sempre por vir à superfície, tal como um corpo em podre decomposição acaba por flutuar, não importa se afogado num cristalino lago ou num pantanoso mar de enxúndias.

Poderão camuflar as suas valas comuns com espectaculares campos de golfe, poderão dissimulá-las plantando imensos jardins com lindas roseiras, poderão mesmo erigir por cima delas santuários de fé carregados de santos e de mártires, mas é fatal como o destino; eles serão julgados, não importa por quem.

Há milhões de little brothers à solta, trabalhando por sua própria conta e risco. Faz parte da nossa herança genética a busca das coisas, sejam elas quais forem. Não é por acaso que as criancinhas metem de vez em quando os seus frágeis dedinhos não só nos buracos das tomadas de electricidade, como também em tudo quanto é sítio. Elas querem saber, querem descobrir e descobrem mesmo.

E para o homem não há espaço nem tempo para a procura das coisas e da verdade, sobretudo quando é ele próprio a vítima. Ele tanto se dá ao cuidado de esventrar a terra e descobrir dinosauros enterrados no passado de há milhões de anos, como viajar para o espaço à descoberta do futuro.

Não importa, pois, a justificação que os senhores possidentes apresentam para as suas fraudes e as suas guerras; não importam os seus discursos de falinhas mansas na hora das eleições. Porque, lá no fundo, eles sabem que nós sabemos quais as suas fraquezas e os seus vícios, quais as suas fraudes e os seus crimes.

Nada escapa aos little brothers porque o big brother, construido por eles e para eles, tem os seus bugs, os seus pequenos defeitos, que produzem quase sempre o efeito de bomerangue.

E mesmo, remotamente, para os casos mais esconsos, aí estará a Mãe Natureza com as suas tempestades e enxurradas a pôr a descoberto os milhões de cadáveres de inocentes, mortos por ordem dos desvairados fazedores de guerras.

E até lá, entretanto, as guerras vão continuando com as suas misérias, as suas mortes e as suas carnificinas: no Sudão, na Palestina, no Iraque, no Afeganistão, etc. etc., enquanto outras se encontram já em fase de preparação, como parece ser o caso do triângulo Colômbia/Venezuela/Equador, onde as máquinas de guerra se vão posicionando para a matança.

Haja Deus!

Os Fugitivos

Segundo o pormenorizado e bem documentado estudo feito pelo emérito sociólogo Prof Anikibobó, os portugueses terão criado o seu característico espírito de fuga desde os recuados tempos da baixa idade média.

Na sua base, adianta o erudido sociólogo, estarão as mais variadas motivações: desde a questão primária da sobrevivência das populações, até à simples e mera fuga à assunção de responsabilidades, passando entretanto por outras mais sérias e variadíssimas questões, dentre as quais avultam as que se prendem com a fome e a miséria, tão marcantes e recorrentes na vida dos portugueses.

De acordo com aquele estudo, parece que tudo terá começado com as invasões dos celtas, altura em que, na sua luta pela sobrevivência, se viram forçados a fugir ou a transformarem-se em celtiberos.

Mas como, feliz ou infelizmente, o processo histórico não pára, quando se deram as invasões sarracenas no século VIII dC, os celtiberos, já então muito dispersos, terão sido forçados, também eles, a fugir ou a se transformarem, a partir de então, nos nossos conhecidos moçárabes.

Conhecidos, mas que nem por isso muitos deles não terão deixado de ser passados a fio de espada pelo nosso fundador.

A partir do reinado de D. Pedro I, o esquema já está de todo institucionalizado e os fugitivos das terras lusitanas são já o pão nosso de cada dia. Por isso a facilidade com que os assassinos de Inês de Castro fugiram do país, com ou sem a promiscuidade e conivência do poder instalado.

Depois, é um ver se te avias. No reinado de D. Manuel I, é a vergonha dos cristãos novos e da fuga em massa dos judeus portugueses; na Restauração de 1640, é a fuga dos trânsfugas e dos traidores; no início do século XIX, fogem para o Brasil o rei, a rainha e toda a corte, levando consigo o ouro e fazenda do reino, e deixando o país e o povo na mais trágica das misérias; milhões de portugueses são, então, pela fome, levados a emigrar para as Áfricas, para o Brasil e para tudo quanto é sítio.

No século XX, após a segunda grande guerra mundial e já na década de sessenta, continua a fuga de portugueses aos milhares, por causa da fome, da política e da guerra colonial.

E, finalmente, com a revolução do 25 de Abril e dos cravos, é a confusão e a debandada geral: a alta burguesia foge para a estranja; em poucas horas, milhões de portugueses fogem da União Nacional para os partidos revolucionários e esquerdistas; um milhão de portugueses é posto em fuga de África, através de aviões pressurosa e desinteressadamente oferecidos pelas grandes potências internacionais.

Diz o Prof. Anikibobó que este drama não terminará aqui, porque a psicose da fuga nos está já entranhada na massa do sangue, nos mitocôndrias e nos interstícios da nossa alma. Trata-se de um verdadeiro estado patológico nacional. Daí não admirar que neste país todos fujam às suas próprias responsabilidades, que a culpa morra sempre solteira e que ministros fujam do pantâno ou para o estrangeiro, por um prato de lentilhas.

E face ao presente estado de guerrilha que o governo move contra os funcionários, contra os professores, contra os médicos, contra a classe média, contra os reformados, contra os velhos e contra os pobres, em nome não se sabe bem de quem nem por quê, foi pena que o emérito Prof Anikibobó nada tivesse dito sobre a próxima fuga da gente lusa, conforme indiciam as profecias do Bandarra e do professor Karamba.

Fica-se, assim, por saber se será o governo a se pôr na alheta, ou se terão de fugir novamente do país milhões de portugueses, em demanda de melhor sorte.

Murros no Estômago

Segundo o jornal desportivo Record, na sua edição de hoje, o Major confessou-se surpreendido por ir a julgamento no processo Apito Dourado, relativamente ao caso Boavista-Estrela da Amadora (2003), argumentando que a juíza assim decidiu porque estava condicionada.

De acordo com as declarações do Major, quando este processo foi distribuido à juíza, esta ter-se-á dirigido ao Tribunal da Relação do Porto (TRP) dizendo que não se sentia em condições de participar no processo, porque o Major era amigo de seu padrasto.

Hoje, levei um murro no estômago. Não estava minimamente à espera que isto acontecesse. Fui todo lampeiro ao TIC [Tribunal de Instrução Criminal] buscar a decisão. Só lá estava eu. Nem advogados. Quando veio a decisão terei franzido a testa. De todos os casos que tive, este era o que menos esperava uma decisão destas”, contou.

Não há dúvidas de que vivemos num país de ingratos, de invejosos e onde campeia a torto e a direito a injustiça. Só por manifesta má fé e muita invejinha pelo meio é que isto pode acontecer a um homem a quem o país tanto deve.

Pois, não foi este homem que na guerra colonial deu alma e coração, e não só, e revelou uma capacidade superior nas logísticas e tácticas guerreiras? não tem sido ele que na vida política tem dado sangue, suor e lágrimas pela melhoria das populações, em geral, e do país em particular? no desporto, não é ele que tem oferecido desinteressadamente todo o seu saber, o seu tempo e o seu esforço, de tal modo que a Liga, o Boavista e o Gondomar acabam por lhe ficar a dever a sua existência e as suas façanhas e glórias? no empreendedorismo as suas iniciativas não ultrapassam de longe a dos grandes mestres nacionais nas áreas da economia, finanças e gestão? E na vida partidária, então, não é seguramente o Major a grande auto-estrada que levará o partido à vitória?

Adoramos cada vez mais o Major. E, a bem da Nação, aqui fazemos um apelo que nos vem do fundo do coração: corra com o Menezes, Major, e com a sua probidade à prova de bala tome conta do partido, que ainda vai a tempo de vir a ser o futuro 1º. Ministro e regenerar o país.

Porque nas próximas eleições, que já se avizinham, mesmo que não nos ofereçam um frigorífico, estaremos todos a seu lado com as bandeirinhas da selecção, gritando:

Worten sempre, Worten Major Valentim!

D. Fuas de Roupão

Andava D. Fuas Roupinho agastado com o Primaz de Burgos por via do aumento das bulas e outras manigâncias que aquele ganancioso inventava e sugava ao povo, por altura das janeiras.

E sendo as janeiras dia sim e dia não, naquele tempo, e nada podendo ele contra os deuses e os demónios e os abutres que dominavam o reino lusitano, resolveu então D. Fuas emigrar para a estranja, juntando-se às naus de Bartolomeu Dias que seguiam para a costa de África em busca do reino de Preste João.

Mas ao chegarem àquele lugar a que chamavam lugar da Mina, o grumete que servia a D. Fuas despiu-se do roupão de D. Roupinho e sem nada dizer a seu amo partiu simplesmente África adentro, a caminho. Não certamente em busca do reino de Preste João, que ele até era republicano e ateu, mas talvez em busca das fabulosas minas do rei Salomão, que um dia ouvira sua velha avó contar a estória que vinha na velha bíblia.

Conta a lenda que D. Fuas, o Conde de Marialva, Bartolomeu Dias e tantos outros terão morrido sem honra e sem glória numa qualquer ignota batalha contra o gentio.

Mas quanto ao grumete de D. Fuas Roupinho, nunca ninguém soube ao certo por que terras terá andado, quais as guerras que terá enfrentado, e nem sequer se chegou a saber com rigor histórico se terá dado com as minas de Salomão. Certo, certo, sabe-se, por alguns pasquins encontrados na Torre do Tombo, que terá descoberto uma autêntica mina de ouro, lá para as bandas das terras dos cafres e dos mucancalas.

E quando passados longos anos, o grumete de D. Fuas achou chegada a hora de regressar ao reino, muita água tinha já passado sob a velha ponte romana e muito enxofre tinha já sido bolsado pelo vulcão dos Capelinhos.

Já D. João II tinha morrido podre na velha vila de Alvor, já D. Manuel I se sentava no seu trono dourado e dormia em ternurentos aconchegos com a jovem rainha viúva de seu sobrinho, Isabel de Aragão.

Com os baús abarrotados do vil e dúctil metal, o antigo grumete de D. Fuas cedo se foi enredando na teia que o império tece, e rapidamente é armado cavaleiro por D. Manuel. E nasce então a partir daí a idiossincrasia mesquinha, invejosa, mentirosa e corrupta do luso baronato e dos pato-bravos lusitanos.

São dias de festa, aqueles; e para distrair o povoléu que se acumula no mercado da ribeira, D. Manuel instrui convenientemente os seus histriões e saltimbancos. Acompanham o grumete os barões do reino, montados nos seus cavalos repletos de moscas varejeiras que nunca largam e nunca morrem.

Vão belos e elegantes os barões, nos seus trajes de cavaleiro; D. Fuas Roupinho vai sem roupinha na sua tumba; o grumete segue opulento com a sua colecção dourada: e a ver a procissão passar está a arraia-miúda em cuecas, cuecas que as naus trouxeram da China e da Taprobana.

Mais além, na sacada do Palácio da Ribeira, está D. Sebastião no colo de sua aia, chorando baba e ranho e gritando em altos brados: quando for grande, quero ir morrer longe deste reino, em lugar incerto e seguro onde eternamente nunca dêem conta de mim.