Em termos históricos e contemporâneos, encontramos no país três espécies de barões: desde logo, os barões de barba rija, corporizados por todos aqueles genuínos caceteiros que dilataram a fé e o império a ferro, fogo e fio de espada, mas que ainda assim tinham alguns rebates de consciência que os punham de vez em quando de mal com o rei por amor aos homens e de mal com os homens por amor ao rei.
Depois, surgiram como cogumelos os da segunda espécie, os castiços barões do século XIX, burgueses pato-bravos que, enriquecidos com o ouro do Brasil, foram transformando o seu tinto sangue em sangue azul-real com a compra dos seus baronatos em saldos e leilões, à medida que a nobreza ia caindo na falência e deixava de pagar o passivo das suas vidas ociosas.
E finalmente encontramos, supostamente e para já, os barões mais recentes, nossos contemporâneos que por aí andam de rosto escondido, sem sabermos bem quem são e o que fazem. Tentámos, contudo, recorrer aos doutos conhecimentos do Prof. Hermano Saraiva sobre esta espécie em vias de extinção, a fim de sermos esclarecidos com maior rigor e credibilidade acerca das suas origens e linhagens.
Não nos tendo sido possível, porém, para grande mágoa nossa, contactar o emérito Professor, restou-nos apenas como último recurso à mão dar uma rapidinha ao Google na busca de alguns elementos esclarecedores.
E ficámos, então, desde logo a saber esta estranha singularidade: quanto mais antiga for a coisa, mais elementos se encontram à nossa disposição e mais fácil se torna obviamente descobrir a verdade sobre a coisa. De facto, não era em vão que a minha santa avozinha dizia que com o tempo a verdade vem sempre ao de cima.
Daí a ficarmos a saber sobre muitas coisas que passaram já à história e de muito pouco sobre os actuais barões. Mas sempre ficámos a saber alguma coisa. Por exemplo, parece ser certo que os actuais barões são descendentes enviesados dos antigos barões do século XIX, só que muito mais subtis e sofisticados. Já não usam o baronato nem os seus brazões anelares; agora são doutores e engenheiros. Já não compram títulos à nobreza falida; agora compram acções, obrigações e futuros.
Mas, seguramente, o futuro não se joga na bolsa; joga-se nos partidos. E quer os vejamos ou não, eles, os barões, estão mesmo aí à espera da hora certa para a tomada do poder, invisíveis como aliens e calculistas como Bruto, e, seguramente também, sem os rebates de consciência de que padecia Afonso de Albuquerque, que morreu sem honra nem glória numa fanada nau, algures no Índico.
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