Os Fugitivos

Segundo o pormenorizado e bem documentado estudo feito pelo emérito sociólogo Prof Anikibobó, os portugueses terão criado o seu característico espírito de fuga desde os recuados tempos da baixa idade média.

Na sua base, adianta o erudido sociólogo, estarão as mais variadas motivações: desde a questão primária da sobrevivência das populações, até à simples e mera fuga à assunção de responsabilidades, passando entretanto por outras mais sérias e variadíssimas questões, dentre as quais avultam as que se prendem com a fome e a miséria, tão marcantes e recorrentes na vida dos portugueses.

De acordo com aquele estudo, parece que tudo terá começado com as invasões dos celtas, altura em que, na sua luta pela sobrevivência, se viram forçados a fugir ou a transformarem-se em celtiberos.

Mas como, feliz ou infelizmente, o processo histórico não pára, quando se deram as invasões sarracenas no século VIII dC, os celtiberos, já então muito dispersos, terão sido forçados, também eles, a fugir ou a se transformarem, a partir de então, nos nossos conhecidos moçárabes.

Conhecidos, mas que nem por isso muitos deles não terão deixado de ser passados a fio de espada pelo nosso fundador.

A partir do reinado de D. Pedro I, o esquema já está de todo institucionalizado e os fugitivos das terras lusitanas são já o pão nosso de cada dia. Por isso a facilidade com que os assassinos de Inês de Castro fugiram do país, com ou sem a promiscuidade e conivência do poder instalado.

Depois, é um ver se te avias. No reinado de D. Manuel I, é a vergonha dos cristãos novos e da fuga em massa dos judeus portugueses; na Restauração de 1640, é a fuga dos trânsfugas e dos traidores; no início do século XIX, fogem para o Brasil o rei, a rainha e toda a corte, levando consigo o ouro e fazenda do reino, e deixando o país e o povo na mais trágica das misérias; milhões de portugueses são, então, pela fome, levados a emigrar para as Áfricas, para o Brasil e para tudo quanto é sítio.

No século XX, após a segunda grande guerra mundial e já na década de sessenta, continua a fuga de portugueses aos milhares, por causa da fome, da política e da guerra colonial.

E, finalmente, com a revolução do 25 de Abril e dos cravos, é a confusão e a debandada geral: a alta burguesia foge para a estranja; em poucas horas, milhões de portugueses fogem da União Nacional para os partidos revolucionários e esquerdistas; um milhão de portugueses é posto em fuga de África, através de aviões pressurosa e desinteressadamente oferecidos pelas grandes potências internacionais.

Diz o Prof. Anikibobó que este drama não terminará aqui, porque a psicose da fuga nos está já entranhada na massa do sangue, nos mitocôndrias e nos interstícios da nossa alma. Trata-se de um verdadeiro estado patológico nacional. Daí não admirar que neste país todos fujam às suas próprias responsabilidades, que a culpa morra sempre solteira e que ministros fujam do pantâno ou para o estrangeiro, por um prato de lentilhas.

E face ao presente estado de guerrilha que o governo move contra os funcionários, contra os professores, contra os médicos, contra a classe média, contra os reformados, contra os velhos e contra os pobres, em nome não se sabe bem de quem nem por quê, foi pena que o emérito Prof Anikibobó nada tivesse dito sobre a próxima fuga da gente lusa, conforme indiciam as profecias do Bandarra e do professor Karamba.

Fica-se, assim, por saber se será o governo a se pôr na alheta, ou se terão de fugir novamente do país milhões de portugueses, em demanda de melhor sorte.

Deixar uma Resposta