D. Fuas de Roupão

Andava D. Fuas Roupinho agastado com o Primaz de Burgos por via do aumento das bulas e outras manigâncias que aquele ganancioso inventava e sugava ao povo, por altura das janeiras.

E sendo as janeiras dia sim e dia não, naquele tempo, e nada podendo ele contra os deuses e os demónios e os abutres que dominavam o reino lusitano, resolveu então D. Fuas emigrar para a estranja, juntando-se às naus de Bartolomeu Dias que seguiam para a costa de África em busca do reino de Preste João.

Mas ao chegarem àquele lugar a que chamavam lugar da Mina, o grumete que servia a D. Fuas despiu-se do roupão de D. Roupinho e sem nada dizer a seu amo partiu simplesmente África adentro, a caminho. Não certamente em busca do reino de Preste João, que ele até era republicano e ateu, mas talvez em busca das fabulosas minas do rei Salomão, que um dia ouvira sua velha avó contar a estória que vinha na velha bíblia.

Conta a lenda que D. Fuas, o Conde de Marialva, Bartolomeu Dias e tantos outros terão morrido sem honra e sem glória numa qualquer ignota batalha contra o gentio.

Mas quanto ao grumete de D. Fuas Roupinho, nunca ninguém soube ao certo por que terras terá andado, quais as guerras que terá enfrentado, e nem sequer se chegou a saber com rigor histórico se terá dado com as minas de Salomão. Certo, certo, sabe-se, por alguns pasquins encontrados na Torre do Tombo, que terá descoberto uma autêntica mina de ouro, lá para as bandas das terras dos cafres e dos mucancalas.

E quando passados longos anos, o grumete de D. Fuas achou chegada a hora de regressar ao reino, muita água tinha já passado sob a velha ponte romana e muito enxofre tinha já sido bolsado pelo vulcão dos Capelinhos.

Já D. João II tinha morrido podre na velha vila de Alvor, já D. Manuel I se sentava no seu trono dourado e dormia em ternurentos aconchegos com a jovem rainha viúva de seu sobrinho, Isabel de Aragão.

Com os baús abarrotados do vil e dúctil metal, o antigo grumete de D. Fuas cedo se foi enredando na teia que o império tece, e rapidamente é armado cavaleiro por D. Manuel. E nasce então a partir daí a idiossincrasia mesquinha, invejosa, mentirosa e corrupta do luso baronato e dos pato-bravos lusitanos.

São dias de festa, aqueles; e para distrair o povoléu que se acumula no mercado da ribeira, D. Manuel instrui convenientemente os seus histriões e saltimbancos. Acompanham o grumete os barões do reino, montados nos seus cavalos repletos de moscas varejeiras que nunca largam e nunca morrem.

Vão belos e elegantes os barões, nos seus trajes de cavaleiro; D. Fuas Roupinho vai sem roupinha na sua tumba; o grumete segue opulento com a sua colecção dourada: e a ver a procissão passar está a arraia-miúda em cuecas, cuecas que as naus trouxeram da China e da Taprobana.

Mais além, na sacada do Palácio da Ribeira, está D. Sebastião no colo de sua aia, chorando baba e ranho e gritando em altos brados: quando for grande, quero ir morrer longe deste reino, em lugar incerto e seguro onde eternamente nunca dêem conta de mim.

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